Dica n.º 31 - Sexta, 23.02.2001
www.paulohernandes.pro.br
 
     
 
 

A noção de isotopia

Em Lingüística, "isotopia" (do grego isos, igual, semelhante, e topos, plano, lugar) significa plano de sentido, leitura que se faz de uma frase ou texto. Se, por exemplo, uma frase permite apenas uma leitura, é dita monoisotópica; diisotópica se permite duas; triisotópica, se três; etc. Dessa forma, em "Ganhei esta caneta do meu pai" e "Nas últimas férias, descansei bastante" temos duas frases monoisotópicas, isto é, cada uma com apenas um significado. Em "Há muito televisor que precisa melhorar a imagem" e "Ronan, a Márcia chegou com seu pai", cada frase admite duas leituras. No primeiro exemplo, imagem = representação televisionada de pessoas e coisas e também conceito. No segundo, seu = de Ronan ou de Márcia. Já em "Empresas negam oferecimento de propina", temos frase triisotópica, em que, negam oferecimento = recusam oferecer; desmentem ter oferecido e desmentem ter recebido oferecimento. O mesmo ocorre em "Acadêmicos viram monólitos", em que viram = flexão do verbo ver, de virar-1 (transformar-se) e de virar-2 (mudar de posição). A multiplicidade de planos de sentido é geralmente produzida por homonímia ou polissemia.

É importante notar que o conceito de isotopia pertence à Lingüística - particularmente à Semântica, um ramo seu -, ciência que descreve os fatos da língua sem impor normas nem se preocupar com certo e errado. Assim, para a Semântica, é indiferente se a pluralidade de significados de uma frase ou texto é produzida intencionalmente ou não. Entretanto, para a Gramática, normativa que é, a duplicidade de sentido será encarada como recurso de estilo se for produzida intencionalmente com objetivos estéticos ou expressivos. Em caso contrário, será considerada ambigüidade, vício sintático, que deve ser evitado.

Um texto também pode permitir - parcial ou totalmente - mais de uma leitura, isto é, pode ser mono ou diisotópico, no todo ou em parte. O texto abaixo é bom exemplo disso:

"Em determinado país, onde, em certa época, houve carência de mão-de-obra, o Governo baixou decreto mediante o qual os casais eram estimulados a ter filhos. Tal decreto também previa a hipótese de pessoas se casarem e não conseguirem proliferar. Neste caso, marido e mulher seriam "auxiliados" por agente destacado pelo diretor do Programa de Incentivo à Natalidade ao completarem cinco anos de vida conjugal sem filhos. Exatamente nessa situação encontrava-se o casal que travou o seguinte diálogo:

Mulher - Querido, hoje completamos o quinto aniversário de casamento.
Marido - É... e infelizmente ainda não tivemos um herdeiro.

  - Será que eles vão enviar o tal agente?
- Não sei...
- E se ele vier?
- Bem, nada tenho a fazer.
- Eu, menos ainda.
- Já vou sair, pois estou atrasado para o trabalho.

Logo após a saída do marido, alguém bate à porta. A mulher atende e encontra um homem à sua frente. Era um fotógrafo que se enganara de endereço.

Homem - Bom dia! Eu sou...
Mulher - Ah, já sei. Pode entrar.
  - Seu marido está em casa?
- Não, foi trabalhar.
- Presumo que ele esteja a par...
- Sim, está a par e também concorda.
- Ótimo! Então vamos começar?
- Mas...já? Assim tão rápido?
- Preciso ser breve, pois ainda tenho dezesseis casais para visitar.
- Puxa! O senhor agüenta?
- Agüento sim, pois gosto do meu trabalho. Ele me dá muito prazer.
- Então, como vamos fazer?
- Permita-se sugerir uma no quarto, duas no tapete, duas no sofá, uma no corredor, duas na cozinha e a última no banheiro.
- Nossa! Não é muito?
- Nem sempre se acerta na primeira tentativa.
- O senhor já visitou alguma casa neste bairro?
- Não, mas tenho comigo algumas amostras dos meus últimos trabalhos. (Mostra fotos de crianças.) Não são belos?
- Como são lindos esses bebês! O senhor os fez?
- Sim. Este aqui (mostra uma das fotos) foi conseguido na porta do supermercado.
- Nossa! Não lhe parece um tanto público?
- Sim, mas a mãe era artista de cinema e queria publicidade.
- Que horror!
- Foi um dos trabalhos mais duros que fiz.
- Imagino...
- Esta foi feita num parque de diversões, em pleno inverno.
- Credo! Como o senhor conseguiu?
- Não foi fácil. Como se não bastasse a neve caindo, havia uma multidão em cima de nós. Quase não consigo acabar.
- Ainda bem que sou discreta e não quero que ninguém nos veja.
- Ótimo, eu também prefiro assim. Agora, se me der licença, vou armar o tripé.
- Tripé???!!! Para quê???!!!
- Bem, minha senhora, é necessário. Meu aparelho, além de pesado, depois de pronto para funcionar, mede um metro.
A mulher desmaiou."

Engraçado, não? Pois é... Mas voltemos ao assunto sério. Neste texto, a diisotopia manifesta-se para o leitor, mas para cada personagem as falas são monoisotópicas. E essa monoisotopia, principalmente para a mulher, é reforçada por afirmações do homem como "Ele (o trabalho) me dá muito prazer" e "Sim". (Ao responder à pergunta se tinha sido ele quem tinha feito os bebês.) Presumo que você tenha percebido onde a diisotopia começa: a partir da fala da mulher "Ah, já sei. Pode entrar".
O estudo do significado das frases pertence à Semântica Frástica e o dos textos, à Semântica Transfrástica ou Textual.

Leia mais em:
Dicionário de Lingüística, de Jean Dubois e outro.
Para ler Greimas, de Monica Rector.
Semântica Estrutural, de Algirdas Julien Greimas.
Sémiotique; dictionnaire raisonné de la théorie du langage, de Algirdas Julien Greimas e Joseph Courtés .

Agora, verifique se você assimilou o conteúdo apresentado clicando aqui.

o0o